Quando eu me esquecer

Uma sugestão, ler esse texto escutando a música seguinte:

“Não são às estrelas, mas sim a nós mesmos que estamos subordinados” (Shakespeare).

Estava fazendo um luar tão belo, a lua se encontrava em todo seu esplendor quando ela pegou seu saxofone e começou a tocar. As notas choravam no instrumento, mas um choro bonito, não um choro de tristeza, mas de se estar vivo em meio ao universo, um choro de uma beleza de ser quem se é.

Ela em alguns momentos abria seus olhinhos e olhava para o alto, o brilho das estrelas, a lua, a vista do seu apartamento em frente ao parque mais movimentado da cidade, aquele blues, aquelas luzes, e todo esse cenário a fazia viajar pela poesia da música. Ali, fazendo, o que ela nasceu para ser a fez se sentir mais terna consigo mesma, mais amada por si mesma, mais plena.

Sua música se espalhava pela cidade, um casal que passava embaixo da sua janela, por um minuto parou para escutar a melodia. Eles se entreolharam e se beijaram. Ela sorriu contente por ver que o amor é tão simples. Tocou com mais leveza, era um blues que a cada toque a reconstruía. “Essa sou eu, pensou!” Disse para si mesmo, em silêncio, mas como se fosse um contrato assinado de forma invisível que, nunca mais iria se afastar de si mesma.

Caminhou vagarosamente em direção ao espelho enorme da sua sala, se olhou profundamente, se reconheceu como há muito não a se reconhecia. Colocou delicadamente o instrumento ao lado do seu corpo e ecoou uma melodia:

“Eblouie par la nuit à coups de lumières mortelles
A frôler les bagnoles, les yeux comme des têtes d’épingles.
Je t’ai attendu 100 ans dans les rues en noir et blanc
Tu es venu en sifflant.”

Ela se sentia flutuando, cantou com uma voz um pouco rouca, mas doce ao mesmo tempo. Talvez, esse seria o som da vida, algo forte e sensível, paradoxalmente. Parecia que ela se despia de tudo que a prendesse, engoliu sua própria saliva, era a liberdade, o sabor de quem havia se reencontrado, se apreendido, se mastigado, e se exalado. Sim, aquilo, era, realmente, seu aroma, seu gosto, sua música, seu poema, seu eu, sua vida. Era o que ela é! Abraçou seu saxofone e saiu dançando pela sala.

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